O “tea party” é uma ameaça dos EUA às soberanias nacionais?

Tea Party 01Dos neocons ao tea party: conservadorismo norte-americano comparado

Lucas Amaral Batista Leite

 

RESUMO

Este trabalho tem o objetivo de comparar dois grupos considerados conservadores na política norte-americana, os neoconservadores e o Tea Party. Para tanto, apresentaremos as principais ideias de cada grupo e como cada um enxerga questões internas específicas e a política externa para depois as compararmos e checarmos onde existem similaridades e divergências. A escolha dos grupos políticos não é aleatória, tendo em vista a atuação dos neoconservadores no governo do ex-presidente George W. Bush e a atual oposição ao governo democrata de Barack Obama feita pelos partidários do Tea Party. Para melhor compreensão no que diz respeito especialmente às questões de política externa, procuraremos entender como esses grupos se encaixam em determinadas escolas de pensamento político norte-americano a fim de facilitar a compreensão dos temas em questão.

Palavras-chave: Estados Unidos da América; Neoconservadorismo; Tea Party; Wilsonianismo; Jacksonianismo

 

INTRODUÇÃO

A política externa norte-americana foi bastante influenciada nas últimas três décadas pelo grupo chamado de neoconservadores. É imputada a esse grupo a formulação de uma linha de pensamento mais intervencionista que culminou na invasão do Afeganistão e do Iraque pelos EUA, além da adoção de um discurso mais enérgico e unilateral pelo ex-presidente George W. Bush, o recrudescimento de normas internas de combate ao terrorismo e a justificativa da chamada “guerra preventiva” (PECEQUILO, 2005).

No entanto, o ciclo desse grupo parece ter se encerrado com o fim do último governo republicano e os problemas econômicos pelos quais passou o país. Apesar da retomada do poder pelos democratas na última eleição presidencial, a política externa norte-americana manteve alguns dos parâmetros anteriores, mesmo com o abrandamento da retórica internacional pelo presidente Barack Obama. Nesse ínterim, o atual presidente teve que enfrentar uma grave crise econômica e financeira mundial e, para tanto, editou pacotes de estímulos à economia e de salvamento de bancos privados afetados pela bolha imobiliária. Além disso, Obama aprovou com dificuldade o projeto de reformar o sistema de saúde norte-americano, considerado excludente e pouco abrangente.

Na esteira desses problemas, um novo grupo chamado Tea Party (em alusão ao grupo que entrou em confronto com a Coroa Inglesa num episódio homônimo) surgiu e ganha maiores proporções como oposição e contraponto às ideais do presidente democrata. Considerados “libertários” e “ultraconservadores”, esse grupo apresenta algumas ideais similares às dos neoconservadores, que perderam espaço desde a eleição de Obama.

Retomaremos rapidamente a distinção entre quatro escolas de pensamento político norte-americano a fim de poder entender como esses grupos políticos apresentam ideias há muito tempo perpetuadas no país e retomadas por razões históricas e contextuais. O objetivo deste trabalho será, portanto, comparar e identificar pontos em comum e divergentes desses dois grupos políticos considerados conservadores e como eles agem a fim de defender seus interesses e de seus membros.

 

AS ESCOLAS DE PENSAMENTO POLÍTICO NOS ESTADOS UNIDOS

De acordo com Mead (2006), existem quatro escolas de pensamento político nos Estados Unidos que se sobressaem na história do país, especialmente em política externa: hamiltoniana; wilsoniana; jeffersoniana; e jacksoniana. Apresentaremos brevemente o que define cada uma para que possamos, posteriormente, associar os neoconservadores e o Tea Party a uma linha outra (ou um conjunto delas) de pensamento. “Ao longo dos séculos, aparentemente, os norte-americanos observaram a política externa sob quatro diferentes prismas, que refletem também quatro diferentes e contrastantes maneiras de ver a política interna” (MEAD, 2006).

Explicaremos a seguir, de acordo com as colocações de Walter Mead (2006) e Carlos Gustavo Teixeira (2010) as linhas gerais desses quatro pensamentos políticos principais norte-americanos. Falaremos inicialmente dos hamiltonianos e dos jeffersonianos para depois abordarmos os wilsonianos e os jacksonianos, uma vez que essas duas correntes expressam mais nitidamente muitas das ideias dos grupos nesse trabalho analisados.

Os hamiltonianos focam especialmente na necessidade de garantir boas condições ao setor empresarial pelo governo a fim de obter vantagens no comércio internacional. Nesse sentido, o poder norte-americano estaria ligado à sua capacidade de garantir mercados. Os jeffersonianos, por outro lado, são considerados os mais isolacionistas por acreditarem que a defesa da democracia e dos valores norte-americanos deve ser uma preocupação interna em detrimento da necessidade de espalhar esses mesmos valores, como a democracia e o livre comércio. De acordo com Carlos Teixeira.

[…] a maior preocupação dos jeffersonianos é proteger a democracia norte-americana internamente, ainda que isso leve ao isolacionismo. Essa posição equivaleria à imagem […] dos Estados Unidos como ‘farol’, como a nação que deve liderar pelo exemplo. (2010, p.91)

A tradição wilsoniana, por outro lado, tem um viés muito mais internacionalista e propõe que os Estados Unidos devem sempre procurar levar seus valores aos demais países do mundo. Existiria, portanto, uma visão “missionária” de uma obrigação moral norte-americana em garantir a paz e a segurança internacional, como se isso fosse intrínseco ao interesse nacional do país. Em outras palavras, “[…] os wilsonianos tipicamente acreditam que os interesses norte-americanos exigem que outros países aceitem nossos valores básicos e por eles pautem suas políticas externa e interna” (MEAD, 2006, p.132).

Por fim, os jacksonianos representariam uma tendência mais populista, mais ligada ao senso comum que as demais. Nessa tradição, o papel da história é fundamental para corroborar os atributos de “uma cultura populista e popular de honra, independência, coragem e orgulho militar profundamente enraizada e com ampla difusão entre o povo estadunidense” (MEAD, 2006, p.133). Nesse sentido, os grandes líderes, a Revolução Americana e símbolos como a Constituição e o papel da democracia e da liberdade se destacam no imaginário e no discurso dos que defendem esse pensamento.

É importante deixar claro que quando separamos essas quatro principais correntes, não o fazemos de forma rígida, mas volátil de forma a poder compreender como elementos de uma ou de outra se misturam em determinadas posições. Por isso, o próprio contexto da política norte-americana pregaria certo pragmatismo e abertura para posições menos radicais.

Os hamiltonianos, com sua ênfase no comércio e nas finanças, abriram mão da histórica defesa do protecionismo e apoiaram o livre comércio como a política econômica necessária a uma potência hegemônica. Os jeffersonianos modificaram sua histórica aversão à política de grande potência para emprestar crítico apoio à Guerra Fria. Os wilsonianos combinaram sua visão de uma ordem moral única para todo o planeta com as necessidades concretas da hegemonia norte-americana. Os jacksonianos asseguraram 40 anos de amplo e inabalável apoio popular à sangrenta e perigosa Guerra Fria. (MEAD, 2006, p.134)

 

OS NEOCONSERVADORES

O surgimento do grupo político denominado “neoconservador” (neocon) remonta às transformações pelas quais passaram a sociedade norte-americana nas décadas de 1960 e 1970. O acirramento de debates sobre o aborto e direitos civis, além de uma liberalização dos costumes, levou a uma organização de grupos que apoiavam e que combatiam tais tendências. Para tanto, buscavam alterar a jurisprudência existente e alterar o perfil da Suprema Corte.  Nas universidades americanas os jovens debatiam essas questões e se deparavam com a divisão política da “esquerda” – mais ligada às mudanças da sociedade norte-americana na época – em dois caminhos. Um deles, mais ligado às influências da esquerda da década de 30 e 40, procurava influenciar as decisões do Partido Democrata e resolver as contradições do poderio norte-americano. A outra corrente era marcada pela desilusão com a “esquerda europeia” e as ideias de contracultura presentes nas discussões da época (PEREIRA, 2009). “Assim, o neoconservadorismo emerge incialmente como uma reação dentro do liberalismo ao que era visto como uma corrupção pela esquerda dos valores tradicionais norte-americanos” (TEIXEIRA, C., 2010). Nesse momento, nomes como Irving Kristol e Norman Podhoretz surgiram como os principais debatedores deste segundo grupo e logo alcançaram notável reconhecimento dentre segmentos da sociedade norte-americana (FINGUERUT, 2009; TEIXEIRA, T., 2007).

Financiados por famílias milionárias como os Richardson e Coors, esses jovens intelectuais tiveram a tranquilidade necessária para desenvolver suas ideias e projetos: Kristol cunhou a denominaçãoneoconservador e escolheu o Estado de bem-estar social e o liberalismo como alvo de suas críticas; Podhoretz escolheu a nova esquerda como alvo (FINGUERUT, 2009, p.120).

Esse novo grupo havia rompido com o Partido Democrata e formava a “nova direita”, que teria papel importante na formulação de políticas “de endurecimento e reaquecimento da Guerra Fria que orientaram o governo Reagan (1981 – 1989), que muitos creditam (…) terem sido responsáveis pelo colapso soviético e consequente triunfo dos Estados Unidos” (CHAVES, s/d, p.3). William Kristol (filho de Irving Kristol) e Paul Wolfowitz são exemplos de neoconservadores que ocuparam cargos na área de política externa e defesa do governo Reagan e terão papéis semelhantes nos governos de Bush pai e Bush filho. Ainda no governo Reagan, os neocons foram responsáveis por “políticas neoliberais na economia (corte de impostos, encolhimento do Estado de Bem-Estar, aumento dos gastos em defesa), endurecimento e militarização no setor externo, balizados por uma retórica messiânica e religiosa (PECEQUILO, 2005, p.360)”.

[Irving] Kristol (2003) descreve o neoconservadorismo como tipicamente americano e uma ilha de excelência no Partido Republicano, que conseguiu tornar o conservadorismo mais palatável à maioria dos eleitores. Para ele, são as políticas neoconservadoras que resultam em presidências republicanas populares, e não as conservadoras. Entre as consideradas bem-sucedidas, Kristol cita as de Theodore Roosevelt e Reagan (TEIXEIRA, T., 2007, p.173).

Já nessa época, os neoconservadores expunham um discurso de nação privilegiada, destinada a liderar as outras nações em direção a um mundo livre, democrático e seguro. A influência neoconservadora acarretou um acirramento das tensões entre os EUA e a URSS no período Reagan. A negação de um diálogo contundente fez com que o arsenal nuclear das duas potências aumentasse proporcionalmente à ameaça considerada. Ao contrário de outros ex-presidentes americanos, Reagan optou por um discurso mais rígido e menos conciliador, sendo o criador da ideia de se construir um escudo antimíssil na Europa, também conhecido como o projeto “Guerra nas Estrelas” (PECEQUILO, 2005).

Com o desmantelamento da União Soviética, os Estados Unidos encontravam-se sozinhos num mundo unipolar, ou seja, não havia outra potência capaz de fazer frente ao seu poder ou desfiá-lo em qualquer campo (HOBSBAWM, 2007). “Na visão dos neoconservadores, o governo Bush era a transição para se pensar a Guerra Fria, o Estado de bem-estar social, o liberalismo e a liderança dos Estados Unidos (FINGUERUT, 2009, p.130)”. Para eles, o fim da Guerra Fria representava um momento único na história mundial, em que os EUA poderiam enfim projetar suas ideias livremente com o intuito de disseminar ideais democráticos e liberais para o resto do mundo (PECEQUILO, 2005). Convém ressaltar que os neoconservadores não possuíam um discurso senso comum ou desprovido de arcabouço teórico.

[Os neocons] não são a-intelectuais, pelo contrário, como demonstra a própria biografia de seus expoentes, trata-se de um movimento intelectual que tem por objetivo desalojar a outrora hegemônica (nos EUA) concepção de mundo que denominam “leftist liberalism“, bem como o combate ao relativismo cultural e, no campo da teoria das relações internacionais, às concepções realistas, da interdependência e do conservadorismo “clássico” (isolacionista e não intelectualizado). Buscam, dessa forma, construir e exercer o papel de intelectuais orgânicos de um movimento “conservador internacionalista”. São, majoritariamente, acadêmicos, analistas políticos e ativistas ideológicos (CHAVES, s/d, p.3).

Os Estados Unidos teriam então a obrigação e a responsabilidade de manter a estabilidade e a paz no mundo (TEIXEIRA, T., 2007). As “funções” a serem exercidas pelos EUA eram apresentadas pelos neoconservadores da seguinte forma: defesa e expansão da democracia (mesmo que para isso fosse necessária a intervenção direta e a mudança forçada de regime em outros países); liberdade em relação aos organismos internacionais multilaterais, considerados amarras ao poder americano, especialmente num período de supremacia estadunidense; e maior investimento e ampliação das Forças armadas, capazes de se manterem na vanguarda tecnológica e de dissuadirem qualquer ameaça ou inimigo (TEIXEIRA, T., 2007).

O pós-11 de setembro foi marcado por uma reformulação dos objetivos estadunidenses no cenário internacional. De acordo com Flint e Falah (2004), valores como liberdade, justiça e dignidade humana serviriam para inspirar a nova estratégia norte-americana. Os neoconservadores enxergaram neste momento a possibilidade de colocar em prática diversas ações que culminariam na formulação de documentos pelo Conselho de Segurança Nacional da Casa Branca e na Guerra do Iraque de 2003 (FROELICH, 2005).

Dentre os documentos formulados, um é especialmente lembrado por pesquisadores como a origem da Doutrina Bush. Trata-se da Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos (National Security Strategy of the United States – NSS), divulgado em 2002 e que trazia à discussão possíveis formas de intervenção dos EUA em outros Estados.

A Estratégia de Segurança Nacional é uma publicação anual que, normalmente, não atrairia muita atenção. A versão de 2002 foi diferente. Publicada pouco tempo depois dos ataques de 11 de Setembro, ela foi vista como o documento definidor da “Guerra ao Terrorismo”, o elemento definidor da emergente política externa de Bush. A principal resposta ao documento focou na nova doutrina de “preempção” – a intenção de atacar antes ‘que nossos inimigos ataquem primeiro’ para “exercitar nosso direito de autodefesa agindo preemptivamente contra tais terroristas” (FLINT; FALAH, 2004).

As principais características do documento envolvem a distinção entre guerra preventiva e guerra preemptiva e a possibilidade do uso de ambas (AMORIM, 2004); a denominação de Estados na classificação de “fracos” e “falidos” – rogue states; a reafirmação do termo “Eixo do Mal” e a colocação de alguns Estados nesta classe; a necessidade de evitar que terroristas e Estados que os hospedem ou patrocinem de alguma forma possuam armas de destruição em massa; e a disseminação dos valores liberais democráticos ás nações oprimidas por regimes “déspotas” e “tirânicos” (JERVIS, 2003).

Os Estados Unidos reafirmam a possibilidade de agir unilateralmente quando necessário, mesmo que através de intervenções e conflitos diretos – o que em outras palavras significa a mudança de regime através do uso da força (LIMA, 2005). Para tanto, adotariam a política de atuar contra um inimigo antes que este tivesse a possibilidade de fazê-lo, ou seja, não esperar o primeiro ataque (guerra preventiva), ou de atuar contra um inimigo de quem a ameaça seria iminente e exigiria medidas urgentes e drásticas (guerra preemptiva) (BOIO, 2003; TEIXEIRA, T., 2007).

A guerra ao terror como plataforma de política externa norte-americana foi mantida, da mesma forma que o discurso intervencionista como forma de levar a democracia e os valores liberais aos países que representassem alguma ameaça aos Estados Unidos e seus aliados.

(…) houve e continua havendo uma grande influência do pensamento neoconservador na administração de George W. Bush, tanto em seu primeiro quanto no segundo mandato, resultante em parte da proximidade pessoal de seus teóricos com os representantes oficiais, e da ligação destes últimos com os think tanks, da presença de proeminentes neocons no governo, e de maneira mais concreta, dos artigos, relatórios e cartas dos TTs (instituições) e seus intelectuais (pessoas), que se transformaram em importantes documentos e políticas oficiais (TEIXEIRA, T., 2007, p.220).

 

O TEA PARTY

Ao contrário dos neoconservadores que ao longo de décadas formaram sua base intelectual e firmaram suas posições por meio de think tanks, o movimento conhecido por Tea Party nos Estados Unidos surgiu muito recentemente, após a eleição de Barack Obama à presidência do país. Seu nome faz alusão à Festa do Chá de Boston (Boston Tea Party) em que colonos norte-americanos protestaram contra a Coroa Inglesa no que consideravam uma exploração demasiada por meio de impostos abusivos. De forma similar, o Tea Party atual busca contrapor-se ao que considera o peso abusivo do governo sob a forma de regulação da vida privada (como a permissão de portar armas, a regulamentação da união civil homossexual em alguns estados, etc.) e de impostos em demasia, além de programas como o Medicare (que aumentaria o custo da saúde para o Estado e diminuiria a iniciativa privada na área) (BOTELHO, 2010; LEPORE, 2010).

O movimento não teve um início específico, mas constituiu-se num processo de críticas por meio da mídia mais conservadora dos Estados Unidos e algumas figuras políticas. De acordo com Mead (2011), o uso de dinheiro público para evitar que diversos bancos e instituições financeiras do país falissem foi um dos estopins para os críticos mais radicais do presidente Obama.

Desde a sua erupção na cena política nacional em Fevereiro de 2009, em que grupos dispersos organizaram um protesto simultâneo em 40 cidades contra o Pacote de Estímulo Financeiro da Administração Obama, que comentadores e analistas políticos têm oferecido interpretações contraditórias sobre o significado e influência do novo movimento populista de pendor conservador; enquanto alguns o leem como um fenômeno efêmero deliberadamente fomentado pela mídia conservadora, nomeadamente a Fox News, outro explicam-no como uma genuína revolta basista que reflete um profundo mal-estar antipolítico do eleitorado, ou mesmo como a herança (se bem que politicamente conservadora) do espírito libertário de autonomia pessoal anti-establishment dos anos 1960 (BOTELHO, 2010, p.106).

A partir daí, as críticas acumularam-se em torno do que os apoiadores do movimento consideram como um crescimento e intervencionismo indevido do governo nas relações econômicas, financeiras e individuais dos cidadãos norte-americanos.Esse tipo de defesa das liberdades individuais e da não interferência nos assuntos econômicos do país aproxima-se muito do pensamento libertário, tipicamente jacksoniano.

O Tea Party não é um movimento homogêneo, sendo na verdade composto tanto de apoiadores mais engajados politicamente como senadores e personalidades midiáticas como de indivíduos comuns sem qualquer tipo de conexão até mesmo com o Partido Republicano.

Com maior conhecimento da ‘marca’ Tea Party, todo tipo de pessoa aproveitou para seguir o que viria a ser uma nova perspectiva de engajamento. Libertários suburbanos, fundamentalistas ruralistas, eruditos ambiciosos, racistas descontruídos e donas-de-casa fiscalmente conservadoras, todos podem e alegam serem apoiadores do Tea Party. (MEAD, 2011, p.29).

Ron Paul (republicano do Texas) e Sarah Palin (ex-governadora do Alasca e candidata a vice-presidente na chapa republicana de John McCain nas últimas eleições) encabeçam a lista de políticos mais famosos do Tea Party. No entanto, como exemplo da falta de homogeneidade do movimento, os dois principais representantes políticos não tem um discurso comum em relação à política externa, por exemplo. Walter Mead (2011) afirma que os Paulinites(aqueles que tendem a concordar com o político texano) defendem um isolacionismo maior dos Estados Unidos em relação aos conflitos internacionais, inclusive com menor participação nas decisões relativas ao Oriente Médio. Por outro lado, os Palinites (sob a mesma lógica, os que seguem uma linha mais próxima de Palin) defendem uma política vigorosa e proativa no cenário internacional, dando continuidade ao discurso de uma guerra ao terror global a fim de garantir a vitória norte-americana a qualquer custo.

No entanto, uma característica típica dos jacksonianos está presente nas duas correntes, qual seja o desprezo pela condução da política internacional por meio de instituições e leis internacionais (MEAD, 2011). Isso significa um descaso em relação às atuais tentativas de combater o aquecimento global por meio de fóruns internacionais e a ideia de que os Estados Unidos podem agir sozinhos se necessário para defender seus interesses, numa clara defesa do unilateralismo. Um meio-termo comum seria a definição apresentada por Mead.

[…] os jacksonianos acreditam que os Estados Unidos não devem envolver-se em disputas externas, mas, caso outros países desencadeiem guerras contra o nosso, eles concordam com o General Douglas MacArthur: ‘Não há substituto para a vitória’ (2006, p.20).

Nesse caso, a defesa de Palin e seus apoiadores é a de que os ataques terroristas em 11 de setembro de 2001 demandaram uma resposta imediata e enérgica do governo, fato corroborado até mesmo pela linha de pensamento dos Paulinites – ainda que não se sintam à vontade com intervenções longas e custosas como a Guerra do Iraque, tanto no sentido do deslocamento de tropas para territórios tão distantes quanto para o aspecto econômico do conflito.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS: O TEA PARTY E OS NEOCONS SOB UMA PERSPECTIVA COMPARADA

Apresentaremos inicialmente, por meio de uma tabela, os pontos de encontro e divergência entre os dois grupos, quais as ideias compartilhadas e como elas se apresentam:

tabela 1 procurou apresentar os principais pontos referentes à política externa dos dois grupos. Ambos defendem um papel menor do governo no que se refere à taxação da população, de forma geral. Além disso, são defensores da iniciativa privada e preferem deixar para os estados da federação as principais decisões aos que eles entendem como “liberdades individuais” como o casamento civil homossexual, o aborto, o porte de armas, entre outros.

 

 

Quanto ao internacionalismo versus isolacionismo, já apresentamos em outro momento como as opiniões dentro do Tea Party são díspares, sendo uma delas mais próxima do que defendem os neocons, ou seja, maior intervenção nas questões internacionais (a linha Paliniste).

No que tange às linhas de pensamento político apresentadas no início desse trabalho, os neocons são um desafio à parte. Poderia se pensar num primeiro momento que a tradição wilsoniana de espalhar os valores norte-americanos pelo mundo por meio de mudanças de regime, além do execpcionalismo dos Estados Unidos, justificasse tal classificação. No entanto, como afirma Carlos Teixeira, “trata-se de uma perspectiva distinta, pois é um internacionalismo que atribui aos Estados Unidos, e não a quaisquer tipos de arranjos institucionais supranacionais, o papel de conduzir a ordem internacional” (2010, p.83). Por isso, preferimos definir uma maior aproximação com o wilsonianismo, apesar das ressalvas a serem feitas em relação ao papel das instituições e leis internacionais.

O Tea Party, por outro lado, tem uma tendência mais clara em direção ao jacksonianismo demonstrada pelo apreço à história, aos ideais de criação da nação norte-americana e seus “Pais Fundadores” (LEPORE, 2010). Dessa forma, apesar da heterogeneidade do grupo e da dificuldade em encaixá-los exatamente numa forma específica, a defesa de suas opiniões costuma ter o foco de um retorno a uma suposta antiga forma de autonomia dos cidadãos e dos estados da federação e menor interferência do governo.

[A] falta de especificidade da sua agenda (para além da exigência de “menos governo”), e o caráter heterogêneo e frequentemente contraditório dos interesses dos grupos e opiniões que o guarda-chuva semântico alberga, que à partida poderiam prejudicar a sua ambição política, parecem, por outro lado, facilitar a sua função de refletor de uma panóplia de descontentamento de setores diversificados do eleitorado conservador e libertário (BOTELHO, 2010, p.106-107)

Nessa mesma linha, conforme já dito, os dois grupos tendem a não confiar nas instituições internacionais. Ambos afirmam que os Estados Unidos não podem ser “controlados” por leis que divergem de seus ideais, além de não acreditarem na eficácia de suas decisões, tornando este o ponto mais coeso entre os neocons e os apoiadores do Tea Party. Finalmente, os neocons são extremamente favoráveis ao aumento dos recursos para a Defesa, com melhoria da tecnologia de combate, melhor treinamento e demais fatores que possam manter a hegemonia do país no aspecto militar. O Tea Party não deixa explícito, mas dá sinais de que as Forças Armadas do país de fato são uma instituição especial na formação da identidade nacional, especialmente quando se remete aos principais fatos históricos do país, corroborando a ideia de que ter manter recursos para os militares faz parte da construção da grandeza do país e da possibilidade de agir, se necessário.

A análise feita neste trabalho não procurou ser em momento abarcar todos os possíveis elementos que compõe os dois grupos. Pelo contrário, limitamos nosso levantamento a fim justamente de mostrar onde se encontram as tendências convergentes entre os dois grupos, apesar de termos consciência de divergências claras existentes – especialmente quando tratamos de comparar correntes denominadas conservadoras. Num conceito mais amplo, conservador é aquele que procura manter o status quo, preservar uma determinada ordem. Seguindo essa linha, dificilmente conseguiríamos enquadrar os neoconservadores dentro de um padrão conservador, mas sim uma forma mais radical de interpretar os interesses norte-americanos.

Destacamos, portanto, duas características importantes acerca da filosofia política do conservadorismo. A primeira é uma “fé na história”, que leva a uma atitude que poderíamos classificar como antimoderna ou antiprogressista, de resistência a mudanças bruscas e oposição ao voluntarismo. A segunda enfatiza o papel dos estratos intermediários, procurando protege-los concomitantemente da influência do Estado Nacional e dos perigos do individualismo. Constatamos também que essas características têm como corolário uma postura que negligencia a importância da política como forma de satisfazer as aspirações humanas. Ambas as características, e seu corolário, parecem não se aplicar no que tange ao neoconservadorismo. (TEIXEIRA, C., 2010, p.39-40)

Seria mais fácil compreender as premissas apresentadas pelo Tea Party como sendo tipicamente conservadoras, que “normalmente tende a priorizar a história, a cultura ou a economia em detrimento da política” (TEIXEIRA, C., 2010, p.39). Os neocons, por outro lado, dão grande valor à política e não tem necessariamente uma visão que enfatiza a história (apesar de, como já dizemos, elementos comuns se apresentam em momentos diferentes, inclusive com a difusão de pensamentos políticos), mas objetivos que envolvem em grande medida a construção para o futuro – nesse aspecto, sob o viés conservador, de valorização da família, da religião e atrelando um papel heroico ao Estado.

 

REFERÊNCIAS

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BOTELHO, Teresa. O novo populismo conservador do movimento Tea Party e as intercalares americanas. Revista Relações Internacionais, set. 2010, nº27, pp 105-114.

CHAVES, André d’Almeida Chaves.  O Pensamento “Neoconservador” e a Política Externa dos Estados Unidos: A Construção da Nova Ordem Internacional. Disponível em: <http://www.ciari.org/investigacao/o_pensamento_neoconservador_pe_eua.pdf>. Acesso em 14 jun. 2011.

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