ZÉ VÂNDALO “O HERÓI DA PERIFERIA”

José Vândalo

Nova Produção da Globo

Por Fernando Di Lascio 

Jose morava numa Comunidade da Favela na Vila Sônia, Rua da Verdade, s/n. Vivia uma vida de dificuldades que começava às 4 da manhã quando tinha que acordar para chegar ao trabalho antes das 8 e ia até a meia noite quando chegava em casa com fome, após o trabalho, o curso da Fatec, o ônibus, o metrô, o outro ônibus e uma caminhada.

Era um trabalhador honesto, estudante dedicado, irmão carinhoso e filho querido de uma mãe que fora abandonada pelo marido com uma filha de colo e outro na barriga, logo que lhe comunicou a segunda gravidez e, por isso, teve que ir morar num barraco de madeira com fogão de gravetos no chão e banheiro no mato.

Mas José cresceu foi estudando e trabalhando para sustentar a família até que conseguiu colocar sua irmã na escola e com a ajuda da sua mãe foi de puxadinho em puxadinho, até fazer uma casinha onde antes só havia uns pedaços de pau e uns plásticos rasgados.

Apesar de tudo eles iam levando numa boa até que um dia, ao passar por uma Rua escura, entre o terminal do ônibus e a sua casa, quando voltava da escola a irmã do José foi sequestrada, estuprada e morta por três marginais “di menor” que até hoje vagam impunes nas ruas e livres da polícia.

De tanta tristeza, a mãe do José que já não vinha bem, começou a piorar e, sem alternativas, teve que correr e recorrer ao SUS até que noutro dia ruim, ao meio dia, uma ulceração estomacal acabou com a vida dela num corredor de Hospital, enquanto esperava pelo atendimento de um endocrinologista, cuja consulta havia sido solicitada, com urgência, há seis meses atrás.

Mesmo muito triste e sozinho no mundo, José continuou estudando, aprendendo e trabalhando até que conseguiu comprar uma moto para ir e voltar do trabalho, o que lhe permitiria dormir maravilhosas 6 horas por noite.

Mas essa alegria durou pouco e numa outra noite ruim, ao voltar para casa, num farol de cruzamento vazio ele foi abordado por dois marginais em outra moto que lhe presentearam com uma opção na vida: dar a moto, ou a própria vida. E, assim, lá se foi a moto do José, mas ficaram com ele a vida e cinco anos de prestações.

Enquanto José ia trabalhando, estudando e sofrendo – e como sofria José ninguém sabe – ia aprendendo a enxergar um País que a Tv não mostra. Indo à Escola, lendo, discutindo com amigos e colegas aprendeu que o Brasil é uma República Democrática e aprendeu, também, quais são os fundamentos da República e da Democracia. E, ainda, aprendeu quais são os direitos e as obrigações sociais que distinguem cidadãos e cidadãs dos velhacos, dos néscios e das demais espécies de animais.

Até que, finalmente um belo dia, José concluiu que o Estado, por uma questão constitucional de fundamental importância republicana e democrática, tem o dever de garantir aos cidadãos e cidadãs sua integridade física; seu direito de ir e vir sem ser atacado por marginais; a manutenção da salubridade no ambiente que ele vive e trabalha; a segurança; a educação; o emprego; a soberania nacional e a soberania popular; a cidadania; a dignidade da pessoa humana; os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa e, principalmente, o pluralismo político.

Como sempre, conversando com seus amigos mais chegados sobre tudo isso, José e todos eles chegaram à conclusão de que naquela amargura que sentiam, havia uma relação de causas e efeito.

O efeito, sensível a todos, é que as principais Instituições da República brasileira estavam falhando na sua missão porque nenhum daqueles amigos e amigas acreditava mais na Política, no Congresso, nos Partidos, na Justiça igual para todos e na polícia capaz de garantir a paz na cidade, a integridade física e patrimônio dos cidadãos e cidadãs, contra uma verdadeira horda de ladrões e assassinos que assolam impunimente as grandes cidades.

E não foi nada difícil para ninguém dali identificar duas principais causas dessa descrença nas Instituições: a corrupção e a impunidade.

Foi então que José e seus amigos resolveram ir às ruas protestar e lá foram eles para a Av. Paulista com frases de efeito escritas à mão em cartazes de cartolina branca, se juntar a milhões de outros cidadãos e cidadãs brasileiras que, como eles, sentiam-se indignados com a bandalheira da corrupção e inconformados com o escracho da impunidade que parecem imperar no Brasil.

Lá estavam eles protestando legítima e pacificamente, caminhando pela Av. Paulista, carregando seus cartazes e gritando frases instigantes quando de repente, por causa de um tiro de bala de borracha disparado contra manifestantes, ou por causa de uma vidraça de Banco arrebentada – não se sabe o que veio antes – começou um tumulto com tiros, explosões, gás, cacetadas, pedradas, pauladas, um verdadeiro inferno.
Naquele corre corre, José foi arremessado ao chão, bateu com a cabeça na guia e desmaiou.

Felizmente, após alguns instantes despertou e, ainda deitado ali no asfalto da Paulista cheirando gás de efeito moral, renasceu um novo Homem. Um José que agora sabia que o sistema por mais corrupto que seja tem a força do dinheiro, da mídia e das armas que o mantêm, enquanto que ele, como aqueles milhões de brasileiros e brasileiras que estavam ali nas ruas protestando em várias cidades do País, tinham a Força, o Poder maior que emana do povo,garantido pelo §Único do Art. 1º da Constituição.

O novo José já nasceu sabendo que não deixará de protestar e mostrar sua indignação até que algo de definitivo seja feito para moralizar o serviço público trazendo de volta o respeito e a confiança da sociedade nos agentes públicos. Não vai mais parar de lutar até que se possa ter a certeza de que todo corrupto será exemplarmente punido e que todos os recursos retirados da sociedade em forma de impostos, retornem à ela integralmente em forma de melhorias na qualidade de vida dos cidadãos e das cidadãs, trazendo mais saúde e melhor educação, transporte, habitação, segurança e cuidados com crianças, idosos e deficientes.

Este José que se levantou das cinzas da alienação social e política em que vivera, retirou do seu corpo o moletom que vestia e o enrolou na cabeça, pegou uma mascara contra gazes que estava jogada ao seu lado, confiante na Força que o movia colocou-a em seu bolso e gritou: EU NÃO VOU FICAR CALADO!

Nesse instante, um policial mau treinado e mau comandado olhou para ele e pensou: “Taí mais um vagabundo sem família, sem respeito e sem vergonha. Vou lançar uma bomba bem em cima dele”, e lançou.

Todavia, aquele novo José, cônscio de seus direitos e responsabilidade social, imbuído da convicção da legitimidade e da necessidade de seu protesto, olhou para a bomba que vinha em sua direção quicando no asfalto e não hesitou. Arremeteu-se em sua direção e com uma só bica mandou o petardo de volta à origem.

Esta cena foi gravada por um cinegrafista da Globo e mais tarde exibida no Jornal Nacional com o William Bonner comentando o fato do José ter chutado a bomba. E valendo-se desta imagem insólita, encobertou do público a verdadeira história do José, julgou-o e condenou-o em pleno Ar. Sem dó nem piedade e tentando desgraçá-lo na presença de milhões de telespectadores, o William Bonner decretou que José, o nosso José, era um “Vândalo”.

E assim, sem que a Globo quisesse, ou soubesse da besteira que fez em batizar de vândalo o novo José, esta Emissora acabou produzindo um herói lá na Vila Sonia, o “Zé Vândalo”. Mascarado como o Batman, como o Homem Aranha, o Lanterna Verde, o Homem de Ferro e tantos outros. Uma espécie de Zorro contemporâneo que por traz da máscara de gás que agora leva a todas as manifestações que vai, é um homem pobre que estuda, trabalha e é vitima da falta de oportunidades, da violência e da insalubridade urbana, como quase todo mundo.

Mas Zé Vândalo, lá ao seu modo, tornou-se um Herói na Periferia onde vive e sofre porque agora todos sabem que ele vai às ruas com coragem e determinação, à frente de todos se necessário, para defender o interesse da sociedade no confronto com a corrupção e a impunidade. E se alguém pensar em dissuadi-lo de seus propósitos cívicos, arremessando contra ele uma nova bomba, pode ter certeza, ele vai tentar chutá-la de volta e ela pode cair bem no meio da cabeça de quem a arremessou, ou ainda, na cabeça de quem permitiu que ela fosse arremessada.

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