A corrupção deles

‘Petralhas, ‘tucanalhas’… É o roto que censura o rasgado e vitupera a si próprio. Desde quando é virtude denunciar nos outros o vício que dissimulamos em nós?

Este parágrafo será longo. Para não ser injusto com o judas da vez, é bom lembrar que recordar é mesmo viver e, no caso, morrer de raiva. Há maracutaias para todos os gostos; uma sopa de letrinhas com todo um alfabeto de legendas. Nem só de fiscais inexplicavelmente milionários, na transição entre PSD e PT, se escreverá a crônica política do nosso tempo. A verdade é que escândalos não faltam, a começar, é claro, pelo célebre mensalão petista. Mas seria desonesto omitir o caso do cartel no metrô e na CPTM, em São Paulo, que envolve os tucanos e constrange até o intrépido Ministério Público, MP. A recente produção de esterco bateu recordes, pois há outros mensalões, em Minas (PSDB) e em Brasília (DEM); há Carlinhos Cachoeira e o impetuoso Demóstenes Torres (DEM); há Paulo Maluf (PP), artista veterano – um clássico -, agora oficialmente lavrado ficha suja; há as relações obscuras entre Sérgio Cabral (PMDB) e a Construtora Delta; há a soberba euforia de Eike Batista e sua OGX; há Rosemary Noronha e as ligações perigosas que oculta (PT); há o vertiginoso enriquecimento de Hussain Aref Saab e as aprovações de empreendimentos imobiliários em SP (PSD). Mais distante no tempo, houve anões, lalaus, precatórios, fitas… Difícil mencionar todos. Há tantos!

Casos não faltam. Não se trata de prejulgar; todos poderão se defender. Oxalá sejam inocentes! Cientistas políticos hoje respondem a processos por mencionar casos que estão nas manchetes; então, todo cuidado é pouco. Mas aquele que se dedicar a caçar exemplos no Google ficará abarrotado de trabalho. Para quem, em 1984, acalentou sonhos de democracia, o resultado da pesquisa é mesmo um pesadelo: será que aquilo deu mesmo só nisso? Claro que não. Mas o sentimento de frustração é evidente. O rio está poluído e mesmo quem defende as águas da política como atividade nobre – que precisa ser recuperada pela cidadania, etc. e tal – fica sem palavras. Dizer que não é bem assim? Não é mesmo bem assim, mas diante dos fatos, faltam argumentos.

Quando do mensalão – eis ele novamente – falava-se “no maior caso de corrupção de todos os tempos”, R$ 50 milhões. Dinheiro pra chuchu. Deu em livros; falta fazer uma minissérie. Mas, agora, parece que a gatunagem esticou ou foi o cidadão que encolheu. Nos casos da Alstom e dos agentes municipais, as cifras giram em torno de meio bilhão de reais em cada um. MEIO BILHÃO! Mesmo que resulte ao patriarca uns tempos no sistema prisional, é butim para tratar toda a descendência como nababos. Dentro de certos parâmetros morais, uma reclusão, se houver, muitíssimo bem remunerada.

Claro, o problema não pode ser tratado apenas pela magnitude de valores: desviou mais ou desviou menos. Ladrão que rouba menos não é mais honesto por isso – talvez, menos ousado ou incompetente no seu mister. Todavia, nem é isso o que mais impressiona; desperta maior inquietação a democratização da pilhagem, que abraça quase todas as correntes políticas com poder no controle de máquinas administrativas.

Não se pode afirmar que partidos estejam diretamente envolvidos; que objetivamente tenham se beneficiado. Mais uma vez, cuidemos da moderação. Todavia, a conhecida dinâmica do financiamento de campanhas e da sustentação da atividade de agentes políticos torna a hipótese bastante plausível. Não seria de estranhar. Mas, obviamente, envolvidos ou não, todos os partidos são atingidos simplesmente porque é a atividade política a mais prejudicada. No mínimo, se dirá: “Atire a primeira pedra quem não guarda um trambolho desses escondido no armário”. Temos um problema de grandes dimensões – moral, financeira, política, humana; trata-se da construção de um futuro doente. Há um tumor do qual não se enxerga as chances de extirpação ou isolamento. O mal-estar não cessa; assombra-nos o temor da metástase.

A percepção de que a corrupção esteja generalizada traz efeitos muito mais perversos que a corrupção em si. Além de minar a crença na atividade política, subjetivamente parece liberar todos a delinquir. Um ciclo vicioso floresce: se as autoridades fazem, por que o cidadão não o faria? Liderar é dar exemplo. É errado pensar assim. Mas que dizer de uma sociedade em que ser chamado de otário é pior que ser apontado como ladrão? Do processo emerge a barbárie: black blocs botam pra quebrar, o PCC se aproveita, comandos vermelhos e milícias se expandem. Já não mais se sabe o que é protesto, o que é oportunismo; o que é simples esquerdismo. De algum modo, a canalhice se expande e se justifica no discurso que exige endurecimento e repressão. Refunda-se o estado de natureza: o homem lobo do homem rasga a dentadas o contrato social; policiais atiram a esmo, crianças morrem nas ruas. O diabo refaz seu redemoinho no asfalto das marginais. O necessário equilíbrio político entre as forças se dá do pior modo: meu adversário não mais me obriga a ser honesto, antes me permite ser igualmente bandido.

Governo e oposição parecem se encontrar na armadilha que a dinâmica competitiva sem freios e imperativos morais armou. O que era para ser simples doença parece evoluir para a epidemia que se alastra por partidos, poderes e unidades da federação. Os números são exorbitantes; mas a exorbitância maior é a irresponsabilidade. A verticalização de São Paulo, saiba-se lá com que métodos e critérios se fez – ou antes, agora se sabe -, vai tornando a cidade disfuncional; a vida obtusa de uma existência estúpida entre excesso de automóveis e de arranha-céus, com ausência de esgoto, sol e ar. Metrôs atrasam, trens empacam; a saúde espalha doença; a segurança desperta violência; a educação embrutece.

Preferem, porém, os partidos apontar o dedo para os adversários, num Fla-Flu moderno sem a nostalgia do futebol romântico. O jogo se degenera em grossa pancadaria; morteiros são atirados da arquibancada num congraçamento de imbecis em que os dois lados têm razão sem ter razão alguma. Vai-se às ruas e às urnas denunciar nos adversários as misérias e a morbidez que há dentro de si. A guerra de advérbios e adjetivos sem substância se estabelece: “petralhas”, “tucanalhas”; “mensalão”, “privataria”… Os opostos não se anulam; antes, potencializam-se. De tudo transparece o cinismo e o farisaísmo; o roto que censura o rasgado e vitupera a si próprio, num sistema em farrapos. Desde quando é virtude denunciar, no outro, o vício que se dissimula? Mais do que crimes, comete-se o erro político ao negligenciar o futuro em que isso tudo pode dar. A responsabilidade exige um basta. Mas o fundo do poço é falso.

*CARLOS MELO É CIENTISTA POLÍTICO E PROFESSOR DO INSPER
Fonte: Estadão

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