A política como ela realmente é

Um dia, questionei um político acerca da incoerência de propósitos e propostas. Mostrava-lhe que o que dizia hoje era exatamente o oposto do que dizia poucos anos antes. Era uma entrevista na então AM do POVO, ao vivo. No intervalo, disse-me: “Você tem razão, mas precisa entender que naquela época eu estava numa disputa política. Agora, minhas circunstâncias são outras”.

Como a declaração se deu na informalidade, não identificarei o autor da pérola da política real. Fiquemos então com o dito. Sim, o Brasil criou um monstrengo na política: o que é dito pelos políticos se relaciona apenas com os projetos de poder que precisam ser alcançados ou mantidos. Para alcançar o poder, profere-se uma coisa. No poder, pratica-se e defende-se outra. Sem constrangimento.

No campo das relações e das alianças, a política faz com que o inimigo de hoje seja o parceiro de amanhã. E vice-versa. E isso ocorre sem que seja necessário mudar de ideias. Estas são moldadas pelas circunstâncias da busca pelo poder ou de seu exercício. Os exemplos estão aí. Aos borbotões.

A coerência e a verdade não são qualidades compatíveis com o exercício da política e do poder. A dissimulação, sim. Atentem para as trajetórias vitoriosas na política. Todas, sem exceção digna de nota, não resistiriam a um comparativo no tempo de seus pensamentos e ações.

Em tempos de campanha eleitoral antecipada, atentem para o que vem por aí.

CASA DE FERREIRO…

Duas notícias recentes sobre a OAB cearense nos chamam a atenção. A primeira delas informa a existência de uma vaga de desembargador do Tribunal de Justiça a ser ocupada por advogado. É o quinto constitucional.

No processo de escolha, após consulta direta aos membros da corporação, os conselheiros da OAB enviam ao Tribunal de Justiça a lista com os seis advogados mais votados. No TJ, a lista é deduzida pela metade. Por fim, cabe ao governador a indicação.

A segunda noticia se relaciona com a primeira. Na semana passada, o Conselho da OAB-CE derrubou a proposta do conselheiro Jacinês Luz, que exemplarmente queria proibir o nepotismo na indicação de candidatos a vagas de desembargador. Sim, senhores, nepotismo só é ruim na casa alheia.

A proposta do conselheiro não surgiu à toa. A nossa dileta OAB, tão presente na cobrança de costumes republicanos e na exigência de moralidade e espírito público na atuação de outros órgãos e instituições, tem praticado o velho nepotismo na escolha dos candidatos a cargos de desembargador.

Nas últimas quatro listas enviadas ao TJ e TRT foram incluídos parentes de conselheiros, além de advogados que sabidamente exerceram papéis de relevo em campanhas pela disputa do comando da entidade. O problema ganha dimensão ainda maior se alguns dos indicados em tas circunstâncias forem despreparados para exercer tão importante função.

Em listas recentes, há nomes de advogados donos de grandes escritórios. É evidente que, nesses casos, não há nenhum obstáculo legal. O que não nos impede de um olhar desconfiado. Afinal, o que leva alguém a querer trocar os polpudos honorários pela vida regrada e austera de magistrado?

Está na hora da OAB praticar o que prega para os outros, abolir o nepotismo e elaborar a lista de candidatos com os advogados melhor preparados para exercer o cargo de desembargador. É o que a sociedade mais espera.

A REDE NO CEARÁ

A Rede Sustentabilidade, embrião do Partido que Marina Silva e aliados tentam viabilizar através da coleta de 500 mil assinaturas, lançará dia 16 de março, em Fortaleza, a primeira de uma série de atividades de recolhimento dos apoios em nosso Estado.

O ainda petista Domingos Dutra, que renunciou à presidência da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados, juntamente com a ex-Senadora Heloisa Helena (AL), iniciarão a campanha através de caminhadas e atividades na Capital.

O problema, não é a obtenção das assinaturas, mas sim a conferência e validação desses endossos nos cartórios eleitorais, para posterior aprovação do Tribunal Superior Eleitoral.

Uma novidade: um dos organizadores da “Rede” no Ceará é o advogado Dimas Oliveira, que começou sua carreira na política através do movimento estudantil da UFC na década de 80. “Queremos atrair para a rede movimentos sociais que, agindo em rede, não aceitam moldar-se às velhas regras onde as máquinas partidárias submetem qualquer iniciativa aos ditames dos ‘donos’ do pedaço”, diz.

EFEITOS LOCAIS

Eduardo Campos (PSB-PE) continua se movimentando. Estão avançadas as conversas com o publicitário Duda Mendonça. Não, ainda não é para a campanha presidencial de 2014, mas sim para o programa nacional do partido que vai ao ar em abril. Será o primeiro laboratório para a possível candidatura de 2014. Detalhe: Duda Mendonça agora é sócio de Antônio Lavareda, que presta serviços para o Governo de Pernambuco e foi, durante todos os governos de Tasso Jereissati, o homem que definia a comunicação do Governo do Ceará. Caso se concretize, a candidatura do pernambucano a presidente causaria forte rebuliço na política cearense. A propósito: o PSB estuda trocar o nome da legenda para “PS40”. Motivo: o voto eletrônico tornou o número da sigla mais importante que o nome do próprio partido.

O COMEÇO DO MUNDO

Outro momento da política como ela é: no final da tarde de sexta-feira, a Prefeitura de Fortaleza promoveu ato de assinatura da ordem de serviço para as obras de construção da nova Beira-Mar. Estavam lá Cid Gomes, Roberto Cláudio, Eunício Oliveira e vários outros políticos. Nos principais discursos, o nome da ex-prefeita Luizianne Lins (PT) não foi citado. Foi em sua gestão que o projeto foi concebido, que contratou o projeto do arquiteto Fausto Nilo E Ricardo Muratori, que conseguiu as fontes de financiamento, que apresentou o projeto em eventos pela cidade e que fez a licitação da obra. Assim é na política brasileira. Assim os petistas fizeram com FHC. O Brasil “começou” com Lula. Assim Cid Gomes fez com Lúcio Alcântara. O Ceará “começou” com Cid. Assim fazem todos.

Fonte: O Povo

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