Escutas revelam conversas entre acusados de corrupção

Conversas mostram que auditor fiscal se orgulhava de tratamento em festa do ex-prefeito Gilberto Kassab.

O Fantástico mostra um esquema de corrupção na prefeitura de São Paulo, revelado esta semana, e que pode ter desviado meio bilhão de reias.
Os suspeitos são quatro funcionários públicos que cobravam propina para que construtoras pagassem menos impostos.
O Fantástico teve acesso, com exclusidade, aos documentos e às escutas telefônicas que ajudaram a desvendar essa fraude milionária.

Uma pousada de luxo, em Visconde de Mauá, no sul do estado do Rio.
Em um dos quartos da pousada, a diária a não sai por menos de R$ 700. Um quarto bastante espaçoso, com uma lareira, banheira de hidromassagem.
O negócio está avaliado em R$ 6 milhões.
Fantástico:Quem que é o dono daqui?
Funcionária: Dono?
Fantástico: É…
Funcionária: Então, ele é de São Paulo!
Fantástico: E o nome dele?
Funcionária: Carlos!

Carlos é Carlos augusto de Lallo do Amaral. Ele é um dos quatro auditores fiscais da prefeitura de São Paulo, presos esta semana, acusados de formar uma quadrilha para cobrar propina de construtoras.

Os outros três são Eduardo Barcelos, ex-diretor de arrecadação do município, Luis Alexandre Cardoso de Magalhães, agente de fiscalização, e Ronilson Bezerra Rodrigues, ex-subsecretário da receita municipal da gestão do então prefeito Gilberto Kassab, que na época era do partido DEM e hoje está no PSD. A investigação começou em abril deste ano. Nos trechos a que o Fantástico teve acesso, não existem indícios de que o ex-prefeito soubesse do esquema.

Ronilson, apontado como chefe do grupo, também foi diretor de finanças da companhia municipal de transportes, até junho deste ano, já com Fernando Haddad, do PT, como prefeito. Da mesma forma, os trechos da investigação obtidos pelo Fantástico não estabelecem ligação do prefeito com a quadrilha.

“Nós criamos uma série de mecanismos para verificar se o servidor tinha um patrimônio compatível com a sua remuneração e aí nós detectamos que esses servidores possuíam patrimônio totalmente incompatível e inclusive sinais exteriores de riqueza que denotavam que eles haviam desenvolvido alguma prática ilícita para obter esse patrimônio”, explica controlador-geral do município de São Paulo Márioos Vinícios Spinelli.

Os quatro auditores gastavam muito dinheiro com carros e motos, mas o principal investimento era em imóveis. Casas, pousadas e apartamentos de alto padrão em, pelo menos, três estados: São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais.

“Dá a sensação de que não acreditavam que a municipalidade fosse capaz de desvendar, ou que o Ministério Público fosse capaz de investigar”, diz o procurador-geral da República Márcio Elias Rosa.
O esquema cobrava propina das empresas para que elas pagassem menos ISS – o imposto municipal sobre serviços.
“Eles elaboravam o cálculo, chegavam a um numero e propunham o pagamento pela metade para a construtora. Desta metade, eles recolhiam um valor ínfimo aos cofres públicos e a maior parte era desviada a título de propina”, afirma o promotor de Justiça Roberto Bodini.

O Fantástico teve acesso a telefonemas que fazem parte da investigação. A fraude, segundo a controladoria-geral do município, pode chegar aos R$ 500 milhões. De acordo com a investigação do Ministério Público e da controladoria, o esquema funcionou entre 2006 a 2012. Em algumas as escutas, os auditores se gabam de ter ido a uma festa de aniversário do ex-prefeito Kassab.
Numa conversa com uma mulher não-identificada, Ronílson Bezerra, apontado como líder do grupo, se mostra orgulhoso por ter sido bem tratado pelos convidados. Na comemoração, ele teria encontrado Eduardo Barcelos, outro envolvido.

Mulher não identificada: O pessoal diz aí que você foi na festa do Kassab, pessoal te abraçou…
Ronilson — Ó, eu fui tratado como secretário, é outro papo, é outra coisa. Não sou tratado como auditor. O Barcelos estava lá com o filho dele, viu?
Mulher não identificada Tava lá?
Ronilson — tava! Tava! Chegou primeiro do que eu. Não é mole, não..

Em nota ao fantástico, o ex-prefeito Kassab afirma que, em seus aniversários, sempre reservou um horário para receber cumprimentos de secretários, sub-secretários, assessores, funcionários públicos de carreira e jornalistas. Ele também diz que não tem nenhuma relação pessoal e social com o servidor em questão. E informa que, em seu aniversário, este ano, recebeu mais de quinhentas pessoas, numa cerimônia aberta na sede do PSD.

O grupo investigado pelo Ministério Público usava um escritório no centro de São Paulo para fazer reuniões e discutir os valores da propina. Em uma conversa por telefone com um homem não-identificado, Ronilson Bezerra sugere que esse escritório seria do ex-prefeito Gilberto Kassab.

Ronilson : Eu to com um escritório aqui, pertinho da prefeitura, no Largo da Misericórdia – 23, escritório bom. Escritório que era do Kassab e do, e do…
Homem não identificado : Ainda é…
Ronilson — É, que ainda é… Mas eu to emprestado, eu tô emprestado…
Homem não identificado — Entendi, entendi…

Na mesma nota, Kassab afirma que não tem relação nenhuma com o imóvel em questão, cujo responsável assumiu publicamente que o emprestou para o servidor público.

Reportagem do jornal Folha de S. Paulo de hoje informa que o escritório usado pelos quatro auditores da prefeitura foi alugado por um empresário chamado marco Aurélio Garcia. Ele é irmão do secretário estadual de Desenvolvimento Econômico, Rodrigo Garcia, que é filiado ao partido DEM, de São Paulo. Marco Aurélio confirmou que alugou o imóvel e o emprestou a Ronilson Bezerra.

Conversas de um dos envolvidos, Luís Alexandre Cardoso de Magalhães, com uma mulher que o Ministério Público aponta como amante dele, ajudaram a apurar o patrimônio da quadrilha
Mulher: Eu vou fazer uma denuncia de 5 páginas na corregedoria sobre tudo o que você fez em 2010, 2011. Sobre todas as guias que você recolheu, que você cobrou uma taxa a mais, o dinheiro, contava dinheiro no tapete da minha sala no apartamento da twin, a gente contava R$ 200 mil. lembra disso?

A suposta amante cita um político, Antonio Donato Madorno, vereador licenciado do PT, hoje secretário de governo da prefeitura.

Mulher: Vou ligar para o Donato amanha, porque eu não liguei pra ele ainda e vou falar: você lembra que você recebeu R$ 200 mil do Luis Alexandre para a sua campanha eleitoral?
Luis alexandre: Eu nem sei quem é Donato!
Mulher: Você sabe muito bem quem é Donato! Ele trabalha lá com você. Você quer que eu lembre de quem ele é?
Luis Alexandre: Não lembro desse nome!
Mulher: É Antonio Donato madorno!

Fantástico: Secretário, o senhor recebeu R$ 200 mil pra campanha do senhor do auditor fiscal Luis Alexandre?
Antônio Donano: Não recebi nenhum telefonema dessa pessoa, não a conheço, não recebi nenhum recurso desses servidores, essa investigação só existe porque o nosso governo tomou uma decisão forte de criar uma controladoria autônoma pra combater a corrupção em São Paulo.
Por enquanto, dos acusados, a promotoria ouviu apenas o fiscal Luís Alexandre – que pode ser solto amanhã, quando vence a prisão temporária. Segundo a promotoria, ele se dispôs a colaborar e assumiu a participação.

A defesa de Luís Alexandre informou, em nota, que as contas bancárias e o imposto de renda de seu cliente estão à disposição do Ministério Público. Sobre a suposta contribuição de campanha de R$ 200 mil, afirma que isso não é objeto da investigação e não faz parte das declarações prestadas ao Ministério Público.

Em notas, o advogado de Carlos Augusto do Amaral, dono da pousada no Rio de Janeiro, diz que o patrimônio de seu cliente é fruto dos salários dele como servidor. E que a pousada foi adquirida há mais de 17 anos.
A defesa de Eduardo Barcelos afirma que ele e a esposa herdaram do sogro um considerável patrimônio imobiliário, que gera uma renda expressiva. O advogado de Ronilson Bezerra afirmou que ainda não teve acesso às acusações contra Ronilson. E que vai se manifestará no momento oportuno.

“O dever primário que qualquer servidor tem é o de conservar a lealdade para com a função que ele deve exercer. Se ele troca esse dever de lealdade por uma vantagem econômica, o ato é de traição”, considera o advogado.

Fonte: G1

Artigos Relacionados:

Publicado na categoria: Notícias | Com a tag , , , , | Faça seu Comentário

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Efetue a operação abaixo: *