Moral, ética e corrupção

A notícia corrente que circula nos bastidores em Lausanne é a recente renúncia ao cargo de membro do Comité Olímpico Internacional (COI) por parte de João Havelange, antigo presidente da FIFA, segundo o próprio por motivos de saúde. Este brasileiro, de 95 anos, está a ser investigado pela Comissão de Ética do COI por suspeitas de corrupção.

João Havelange era o membro do Comité Olímpico Internacional desde 1963 sendo o membro há mais tempo em exercício. Tendo sido Presidente da FIFA entre 1974 e 1998, Havelange estava sob investigação pela sua ligação à ISL – International Sports and Leisure, empresa de marketing da FIFA que negociava os direitos televisivos do Campeonato Mundial de Futebol, e que faliu em 2001 com dívidas superiores a 225 milhões de Euros.

O timing desta renúncia é interessante pois é precisamente amanhã a reunião da Comissão de Ética do COI para avaliar este caso e outros de membros do COI igualmente associados à ISL. São eles Lamine Diack, presidente da IAAF – Associação Internacional de Federações de Atletismo, e Issa Hayatou, presidente da Confederação Africana de Futebol.

A Comissão de Ética é uma comissão independente que foi criada em 1999 pelo COI na sequência do escândalo associado à atribuição da candidatura dos Jogos à cidade norte-americana de Salt Lake. A candidatura, que havia concorrido sem sucesso quatro vezes, venceu a atribuição dos Jogos de Inverno de 2002, sendo posteriormente acusada de subornar membros do COI pelos seus votos.

Este escândalo resultou na expulsão de vários membros e na adopção de novas regras provenientes de todo um processo de reestruturação do Comité Olímpico. A Comissão de Ética foi definida como a guardiã dos princípios éticos do Movimento Olímpico, sendo estes definidos pelo “Código de Ética”. Desde então, o percurso da organização de tolerância zero à corrupção tem sido exemplar – como agora é exemplo.

Igualmente a FIFA es tá num processo de reforma e “governance”. Propostas que abordam a transparência, governabilidade e tolerância zero às contravenções das normas têm sido o foco deste processo. A FIFA quer estender o “fair-play” e respeito para além das quatro linhas. Estes passos foram precipitados durante a atribuição à Rússia e ao Qatar dos Mundiais de 2018 e 2022, respectivamente.

Alegações de corrupção surgiram à volta de alguns membros que alegadamente terão aceite subornos por troca do voto. Também aqui o ex-Vice-presidente da FIFA Jack Warner renunciou ao cargo, estando Mohamed Bin Hammam a interpor um recurso ao Tribunal Arbitral do Desporto pela suspensão vitalícia imposta pela FIFA.

Por tudo isto, e por certo muito mais, a FIFA pretendeu reformar a sua forma de trabalhar e a sua imagem denegrida pelos casos anteriormente referidos, através da constituição de quatro grupos de trabalho a focar na (1) reforma estatutária, (2) comissão de ética, (3) transparência e cumprimento, e (4) boa governância. Mas nem este processo tem sido pacífico com um dos parceiros iniciais (Transparency International) a distanciar-se da organização alegando falta de isenção das conclusões.

Parece contraditório que as próprias organizações que promovem o “fair-play”, o respeito, o combate ao racismo, ao doping ou às apostas ilegais, são elas mesmas minadas pela corrupção. Mas como em tudo, é necessário iniciar o processo de purga e acreditar que qualquer organização – seja desportiva ou outra – possa primar pela moral e ética imaculada, sendo capaz então de assumir o verdadeiro papel de liderança para o qual foram criadas.

É curioso observar que o próprio Havelange competiu nos Jogos Olímpicos em 1936 em Berlim como nadador e nos Jogos em 1952 em Helsínquia no pólo aquático. E por tudo isto, permanece a pergunta – a renúncia ao cargo é suficiente para alguém que tenha defraudado o sistema durante tanto tempo?

Fonte: Correio do Minho

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